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SAÍDA DO BRASIL
04-04-1993
O Brasil tem saída sim: aeroporto!
Muita gente tem buscado uma saída para a crise imigrando para a Europa e para os Estados Unidos da América.
De país que recebia levas de imigrantes de todas as partes do mundo, viramos exportador de mão de obra.
Enquanto exportávamos os melhores cérebro, os cientistas e os técnicos — a chamada evasão de cérebros—, ninguém lá fora estrilava. Nem o nosso governo se preocupou muito. Agora exportamos tudo: operários, mão de obra desqualificada, travestis e prostitutas, pobres e ricos, gente desesperada e pessoas sem esperança.
Os Estados Unidos da América fortaleceram as suas defesas para que os mineiros da região de Governador Valadares não se mudassem todos para Boston, com pão de queijo e tudo.
Os franceses e italianos preocupam-se com os travestis brasileiros, os portugueses fecham as portas aos nossos artistas e os escandinavos começam a assustar-se com as “escravas brancas” do Nordeste brasileiro.
Primeiro os alemães e outros europeus vieram para o Brasil atraídos pelos preços baixos e as prostitutas quase de graça. Agora temem a invasão de moças de Recife e Fortaleza que vão como mucamas grátis.
Salve-se quem puder, saia que tiver condições para mudar-se. Pátria é emprego, é comida, é teto, é oportunidade.
Eu também vou seguir o mesmo caminho. Vou para Porto Rico, em agosto, para dar aulas. Vou por um ano, com contrato de trabalho por estou muito acomodado para aventurar-me a procurar emprego.
Os portugueses foram nossos irmãos até o dia em que os brasileiros começaram a ameaçar os empregos deles. Gozaram do privilégio de nossa cidadania, com portos abertos, liberdades e prerrogativas, mas agora negam aos brasileiros que vão para vão para Lisboa, na esperança de acesso aos eurodólares. Encontram agora as portas fechadas, não raras vezes são devolvidos do aeroporto...
Certamente que vou sofrer alguma discriminação lá fora. Nem tanto por ser latino (pois a ilha de Porto Rico, estado livre-associado dos Estados Unidos da América também é latina), mas por ser brasileiro. A fama dos brasileiros vem deteriorando-se, ganhando as páginas policiais e colocando-nos no mesmo rol de outros indesejáveis.
Cabe ao imigrante o consolo: que desanime, mas que paguem o que eu não ganharia em meu país de origem, onde presumivelmente eu não seria discriminado.
Discriminado é o resultado da fome, do desemprego, da miséria, retrato dos tempos que vivemos.
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